CotidianoTodas as crônicas
Crônica 083 min de leitura

O constrangimento coletivo

De volta ao elevador!

Todos perto fisicamente e só devaneando sobre como sair.

Ilustração de pessoas desconhecidas em silêncio dentro de um elevador de prédio comercial.
Ilustração original para De volta ao elevador!

Sabe que meu trabalho mudou de local, veio a Porto Alegre. Há algum tempo já.

Mas a mudança que mais me chamou a atenção foi que os elevadores sobem silenciosos.

Não tem aquelas small talks. Acho inteligente a escolha desse termo no inglês e não como a gente chama de conversa para puxar assunto.

Normalmente é a hora de falarmos sobre o tempo, em especial aquele:

— E essa chuva?

Parece um assunto aleatório, uma conversa sem sentido, mas o silêncio é pior.

A small talk serve para isso, a conversa preenche o ambiente. Um dia sobre o tempo, numa próxima sobre futebol, em outra talvez apenas:

— Opa, vamos lá de novo?

Tinha isso na minha antiga cidade e ainda tem no meu apartamento.

Só fui entender a importância disso ao subir os andares em silêncio no prédio do meu trabalho. Já tentei puxar assunto. Não sei, talvez. Acho que não.

Aqui vamos todos em silêncio. Alguns olhando o celular, outros pensando se puxam assunto, outros fingindo que não estão ali. E sempre tem o ascensorista que fica ao lado dos botões, abrindo e fechando as portas.

Esse silêncio me constrange. Me vejo pensando em puxar assunto para preencher. Coisa boa quando tem um grupo de amigos descendo e falando alguma coisa.

Aquele grupo que sai do trabalho ouriçado, muitas vezes falando mal de algum colega ou da própria empresa. Mal sabem que todos ali estão compenetrados naquele assunto que preenche o ambiente. Cuidado com o que falam.

Voltando, dizem que o silêncio entre pessoas só acontece quando tem intimidade, por isso esse constrangimento no elevador.

Aqui estamos entre estranhos em um vazio completo, somente observando. Um: essa vai descer no sétimo, trabalha em tal empresa, vai parar o elevador antes do meu. Não é a mesma alegria quando alguém aperta um número depois do meu. Me deixa tranquilo que vou parar antes.

Mas de conversa, apenas aquele código de etiqueta mínimo dos elevadores. Quando a pessoa sai, aqui é um:

— Bom dia.

E quando a pessoa entra, um menear de cabeça.

E veja bem, se você não fala nada ao sair, fica de antipático perante todas aquelas testemunhas. É o mínimo.

Chega a ser engraçado esse constrangimento coletivo naquele cubículo de um metro quadrado. Todos perto fisicamente e só devaneando sobre como sair.

Mas tenho certeza que todos ali estão no mesmo barco, então vamos descendo e subindo em silêncio.

A conversa preenche o ambiente.

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